Aderlan Crespo
É muito, mas muito antiga a reflexão
sobre a política. Foram séculos que permitiram o ser humano (majoritariamente
os homens) atuar como líderes, representantes do povo, tanto como verdadeiros
ídolos, tiranos ou como meros indiferentes, quando desprovidos de qualquer
valor, a simpatia ou raiva. O alcance de tal condição de poder se deu de forma
diferente na história, seja por sucessões de famílias (famílias reais ou
dinastias), pela força (tirania) ou ainda pela vontade da maioria (democracia). Eis,
portanto, o incrível invento dos povos civilizados: a política.
Em outra órbita, o ser humano
carrega consigo, quando atinge a maturidade (digamos que na fase adulta),
inúmeras tendências de ordem pessoal, desenvolvidas ao longo de sua vida. Essas
tendências comportamentais, que também são conhecidas como “caráter”, “características
pessoais da persona”, ou até “personalidade”, fazem parte do indivíduo, como
parte integrante do seu “eu”. É como se permanecessem grudadas na consciência,
e que são demonstradas em determinadas situações, perceptíveis aos olhos de
terceiros. Provavelmente, se forem positivas serão reforçadas pelo indivíduo portador, mas
se forem rejeitadas pelos demais do grupo, então serão reprimidas pelo mesmo.
Porém, pode ocorrer justamente o oposto. O indivíduo, fazendo sua selfie
(auto-análise), não desaprova suas características pessoais, e as adota como
referência predominante (às vezes até aprimora, como um polimento que visa
fazer surgir o brilho do objeto). Agindo assim, estará o indivíduo atuando
conscientemente de forma indesejada, buscando justamente “ser desagradável”. As
conseqüências oriundas destas atitudes poderão resultar no isolamento do
indivíduo, a não ser que este se enquadre em um grupo cujas atitudes
predominantes dos demais sejam a mesma ou semelhante (grupo constituído por afinidades
de comportamento).
Façamos agora a aproximação das duas
reflexões anteriores, ou seja, uma composição, de ordem prática e teórica,
sobre a política e a atitude indesejada. Teremos então a atitude desagradável,
logo indesejada, praticada por um político. O problema surge quando tal
hipótese ocorre nos tempos atuais envolvendo um chefe de governo. Seria
compatível esta forma de governar na pós-modernidade?
Inicialmente, podemos afirmar que
qualquer pessoa, atuante na vida política ou não, em muitas oportunidades é
solicitado a justificar uma determinada atitude que praticara, e que não foi
bem recebida. Neste caso, sendo um
governante, recairá sobre o mesmo uma preocupação sobre sua imagem, pois para
este a forma como é visto pelo povo é essencial para sua estabilidade política,
considerando que precisa da “aprovação” popular –ou pelo menos da maioria –
para que continue sua trajetória no futuro. Neste sentido, a racionalização
humana nos condiciona a avaliar como somos avaliados por terceiros e, portanto, devemos ajustar nossas atitudes
diante da expectativa que existe sobre nós. Certamente que não devamos viver em
alerta sobre como temos que agir para agradar os outros, mas paira sobre todos
nós a vontade de sermos aceitos da melhor forma possível. Para tanto, nos
avaliamos a partir de determinados acontecimentos que nos levam a julgar nossas
atitudes. Pode não ser um exercício habitual, mas é muito provável que em
alguns momentos fomos levados a pensar sobre “como agimos em determinada
situação”, ou se “o que aquela pessoa me falou procede”.
Mas, e se, no caso da política, o
governante, ainda que criticado repetidas
vezes por milhares de pessoas, de forma manifestamente direta e clara, não concordar com a desaprovação de suas
atitudes ofensivas e rudes?
O governante, a partir do poder lhe
foi concedido pelo povo, além de ter que planejar as melhores estratégias para o
país, deve agir com o compromisso de ser agradável e, consequentemente, deve
deixar de lado as suas tendências pessoais tão criticadas, e que são responsáveis
por atitudes indesejadas, em nome do cargo que exerce?
O governante, neste século, passa a
ser um símbolo da ética, da moral, do respeito e das novas matrizes que
envolvem o relacionamento humano na coletividade?
Eis uma questão que tem em mira o
resgate do debate acerca da ética e da moral na política. Além de colocar
também em pauta a questão da estabilidade social, pela qual deve haver o
empenho máximo dos indivíduos sobre a organização social em seu cotidiano. Há
de certa forma, uma necessidade da conveniência da convivência humana, que
exige que sejamos sóbrios e racionais, a ponto de fazermos o melhor em nome da
coletividade, mesmo com tanta diversidade e pluralidade cultural. Podemos
afirmar que a maioria das pessoas vive segundo as principais regras sociais que
visam promover uma convivência harmoniosa, ou minimamente tolerada, ainda que
muitos atuem de forma a conspirar contra esta finalidade (a sociologia
estrutural vai denominar como “desvio social”). Trata-se de um problema
atemporal.
Na antiguidade, Platão decidiu
seguir os passos de seu inspirador e manteve-se firme nos estudos e nas reflexões
sobre a “política e a investigação sistemática dos fundamentos da conduta
humana”.
Enfim, a psicologia nos direciona a
pensar sobre como convivemos, sobre quem
somo e como nos tornamos, e como se explicam determinadas atitudes
desagradáveis praticadas pelo ser humano. Contudo, ainda que as ciências nos
demonstrem teses sobre o “comportamento humano”, estaremos sempre impactados
por condutas indesejáveis, principalmente quando o autor é alguém responsável
por uma nação.
Podemos e devemos aceitar que a vida
seja de fato uma porta de possibilidades e experiências, boas e ruins, e que o
melhor é nos preparamos para todas as possíveis experiências. A força está
dentro de nós, mas precisa ser ativada.
No entanto, como ser humanos
racionais, possuímos de fato o controle de nossas consciências, e deveríamos de
alguma forma planejar nosso “eu” para a convivência, pois o agrupamento é a
nossa essência. E a qualidade da vida do grupo depende da atitude de cada um
que faz parte dele.
Desta forma, a vida política exige
que sejamos os mais lúcidos possíveis, a ponto de nossas escolhas não permitirem
o sucesso de candidatos que optam por praticarem atitudes desagradáveis,
ofensivas, indelicadas e preconceituosas.

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