Aderlan Crespo
A Era da Escuridão
pode ser identificada em dois grandes momentos da história. A primeira no transcurso
da Idade Média com a implantação da Inquisição, pela qual milhares de pessoas
foram perseguidas por critério únicos da Igreja Católica, e o segundo durante a
da Idade Moderna com a escravidão de africanos seqüestrados para a Europa e o
Brasil. Com a fase dos governos republicanos logo no início do século XX
imaginava-se um cenário completamente inverso, no que tange a "como tratar os
indivíduos", sejam nacionais ou de territórios internacionais. Porém, o que se
viu foram duas grandes guerras mundiais, com um número absurdamente alto de
mortos. Os motivos destas guerras nunca prevaleceram sobre o princípio
humanitário. A garantia da liberdade individual, do futuro e da vida, diante destas guerras, tornaram-se mitos.
O desenvolvimento
da sociedade capitalista durante todo o século XX intensificou outro
exemplo de escuridão, só que velada. Trata-se da escuridão surgida com a sedimentação da
sociedade de classes, a exclusão social ou a precarização da vida do
trabalhador e da trabalhadora. Consequências da Era do Desenvolvimento disseram, pois nem todos conseguem ter o êxito da conquista. Mas, o que sempre se contestou sobre este processo, foi a ausência de meios para que qualquer um pudesse chegar ao final da corrida, pronto para saborear o gosto da vitória, após tanta luta. Este fenômeno, igual mas diferente ao que
ocorria durante a toda a história (Idade Antiga e Idade Média), sempre difundiu
a ideia (ilusória) de que todos são iguais e de que todos podem ascender ao
topo social, a depender de seu suor, sacrifício e esperança. A meritocracia foi
a principal ferramenta da argumentação proferida à grande massa popular, para
que acreditassem na possibilidade do acesso aos andares sociais superiores. Ter
o povo como apoiador (ou não) providenciou a expansão e o fortalecimento das
técnicas capitalistas conduzidas por empresários e banqueiros. Os mais fortes
tornaram-se muito mais fortes durante o século XX. Nesta fase da história imaginava-se que os princípios norteadores da república pudessem garantir a equidade nas ações governamentais. A justiça deveria vir das práticas governamentais, daqueles que se colocaram à disposição da política.
E o que
presenciamos no século XXI?
O que se
percebe-se, pelo índices que medem a desigualdade dos cidadãos (eixo referente
a qualidade de vida das pessoas, considerando a renda per capita, acesso aos
bens básicos, acesso aos serviços de saneamento, sistema de saúde e de educação
e, ainda, a habitação) é a maximização
da desigualdade, ou seja, um aumento exponencial de pessoas na linha ou abaixo
da linha de pobreza. Os mais fracos se tornaram ainda mais fracos durante o
século XX. E agora no século XXI torna-se visível este trágico quadro nacional. O trabalho, como necessária ação do cidadão, deveria garantir o necessário, o fundamental, o essencial... Mas, o que se vê é a expansão das favelas, do desemprego e das perdas salariais, e, portanto, da desqualificação da vida. O princípio básico da sociedade industrial-comercial-financeira é a riqueza e o crescimento. Portanto, o trabalho e a potencialização do maior número de cidadãos viabilizaria o crescimento e o desenvolvimento, mitigando, inclusive, a super-dependência do Brasil aos demais países. Cidadãos com educação e renda torna-se o agente do crescimento.
A pandemia do Novo
Coronavírus expõe as faces visíveis desta desigualdade, pelo fato de que os
hospitais públicos, sempre antes denunciados, encontram-se em subcondições de
uso, apesar da força e competência dos agentes de saúde. A estrutura é crítica normalmente,
e agora plenamente insuficiente para atender uma demanda tão elevada.
A pandemia causou
uma crise econômica, mas também aponta para uma crise antiga, sempre
negligenciada, que é desigualdade da qualidade de vida das pessoas. Os que
possuem dinheiro superam de uma forma ou de outra os obstáculos da vida
pós-moderna, mas os que são subempregados, e que eram motivo de olhares de
compaixão, hoje tornam-se vítimas letais, pois a qualidade da alimentação, do
trabalho e da saúde mental são critérios para uma alta imunidade, capaz de
superar de melhor forma a crise mundial de saúde.
Portanto, a crise
da HUMANIDADE sempre foi a crise da desigualdade, forjada pela forma como se
divide a riqueza, o alimento e a felicidade. Salve a empatia!

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