Por Aderlan Crespo
A cidade do Rio de Janeiro, como outras, vive um ambiente interpretável como “inseguro”, diante do que se converteu a insatisfação dos policiais sobre seus salários reduzidos, assim como em outras cidades.
Especificamente sobre o Rio de Janeiro, tomado de empréstimo o ocorrido em Salvador, as pessoas demonstraram imenso pavor, comprometendo, inclusive as aulas, o trabalho, os programas de carnaval, ou os simples deslocamento curtos. Quem são os inimigos que estão à espreita esperando tomar as ruas, as casas, as lojas como numa cena apocalíptica de ficção?
O que de fato ocorre quando a polícia “parece” não estar nas ruas? Qual é o grande motivo do medo? Para onde retornamos quando imaginamos não ter policiais nas ruas? Quão é hostil o espaço urbano quando se imagina não ter policiais nas ruas? Quem somos nós de fato? Qual é o medo?
Certamente que, as pessoas, no Brasil e em grande parte do mundo, compreendem os séculos XX e XXI como períodos de elevada satisfação, seja por motivo do uso de várias tecnologias, ou pelo acesso à informação, ou ainda pelo consumo de algum benefício que não se torne tão objetivo a ponto de identificarmos ou definirmos. Poderia ser pelo simples motivo de termos conseguido nos organizar nesta sociedade complexa. Estas sensações também estiveram presentes, talvez até mais intensas do que agora, em conseqüência da ruptura causada com as antigas invenções, quando nos presentearam com a energia elétrica, o telefone, o rádio, o avião, entre outros presentes globais. Todavia, também foram tempos de grandes conflitos onde buscava-se a organização social.
O conflito, a guerra, o terror, estão sempre presentes no quadro pintado sobre a humanidade. Assim, motivados pela ganância prenunciosa de Hobbes, citamos a “barbárie” em eventuais fatos que nos surpreendem, a ponto de nos posicionarmos em defesa, diante de uma sociedade insegura. Vivemos, portanto, entre as satisfações e o medo. Mais uma vez indaga-se: qual medo estamos admitindo? Medo pelo o que pode acontecer, mesmo sem ser possível contorná-lo racionalmente? Medo do caos? Medo da morte? Medo da simples perda de algum objeto patrimonial adquirido com nosso dinheiro? Medo de que os políticos assumam a nação e façam o queiram? Medo do que?
De onde vem este medo, se de fato temos moradia, instituições, cultura da ordem, inúmeros sistemas em funcionamento e leis? Tudo isto se perde quando “parece” não haver mais a polícia nas ruas? Tudo parece ser absorvido pelo caos? Então, a presença da polícia é mesmo o motivo da nossa segurança?
As pessoas podem ser críticas por opção política, de esquerda, questionadores da arbitrariedade policial, platéia satisfeita nas fortes palavras do Capitão Nascimento em Tropa de Elite 2, mas também podem sentir o medo que o “outro” sente? A grande maioria se projeta neste lugar da insegurança e coloca na sala da hipocrisia os nossos desafios ideológicos? De fato, a grande maioria vive um medo do desconhecido, do inesperado, do possível caos social? Então, de que forma devemos avaliar a existência da polícia? Esta crise talvez nos reconduza ao auditório público do debate sobre quem somos e que importância possui a polícia.
Sobre nosso comportamento em sociedade, algumas contribuições teóricas precisam ser lembradas. Assim, em sua obra não recente, Irene Carvalho afirma:
“Poucos comportamentos humanos são independentes da vida social. A maioria de nossas reações aparece como resposta a estímulos provocados pelas pessoas com as quais convivemos, ou é aprendida através de participação na vida social. Há, pois, comportamentos individuais e comportamentos sociais. Assinalam-se, ainda, alguns comportamentos que, além de sociais, são coletivos (...).”
A autora nos facilita o questionamento sobre nossos pensamentos e nossas ações (aspectos objetivo e subjetivo de nossa existência social) ao oferecer a clara perspectiva de que somos influenciados pela interatividade relacional. Não somos indivíduos individualizados. Esta perspectiva interpretativa da vida social também foi refletida por Jacques Lacan, quando sustentou que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem e o inconsciente do sujeito é o discurso do outro”.
Metaforicamente, Goffman sugeriu (não que ele concordasse) que nossas relações interpessoais representam uma peça de teatro, como se os papéis (assim defendido por funcionalistas e estruturalistas como Durkheim) já estivem redigidos e as ações humanas seguissem uma condução pré-escrita, um enredo, sem que houvesse surpresas. Seríamos personagens de uma trama prevista:
“Presume-se que a vida apresenta coisas reais e, às vezes, bem ensaiadas. Mais importante, talvez, é o fato de que no palco um ator se apresenta sob a máscara de um personagem para personagens projetados por outros atores. A platéia constitui um terceiro elemento da correlação. Elemento que é essencial e que, entretanto, se a representação fosse real, não estaria lá. Na vida real, os três elementos ficam reduzidos a dois: o papel que um indivíduo desempenha é talhado de acordo com os papéis desempenhados pelos outros presentes e, ainda esses outros constituem a platéia. (...) Afirmei que quando um indivíduo chega diante de outros suas ações influenciarão a definição da situação que se vai apresentar. Às vezes, agirá de maneira completamente calculada, expressando-se de determinada forma somente para dar aos outros o tipo de impressão que irá provavelmente levá-los a uma resposta específica que lhe interessa obter. Outras vezes, o indivíduo estará agindo calculadamente, mas terá, em termos relativos, pouca consciência de estar procedendo assim. Ocasionalmente, expressar-se-á intencionalmente e conscientemente de determinada forma, mas, principalmente, porque a tradição de seu grupo ou posição social requer este tipo de expressão, e não por causa de qualquer resposta particular.”
Ratificar que a reflexão-crítica de Goffman, sobre um determinismo social, seja uma fonte demonstrável do nosso comportamento social, do qual se espera “ajustado”, “correto” e “justo”, é considerá-lo fundamentador dos moldes comportamentais utópicos, nem mesmo percebido nos pequenos grupos gregos, da era clássica, que realizavam a prática escravista, o sexo aberto, o álcool como afrodisíaco comum, a traição..., ou seja, inúmeros objetos da contestação moral contemporânea.
Mas, o “correto” e o “justo”, baseado na honestidade, é o que sempre se espera. Assim, Goffman, na sua leitura do retrato social, trabalhou com a obviedade da humanidade, qual seja: no discurso, deseja-se o melhor, e o melhor é a harmonia, produzida pelos comportamentos sociais mais elevados moralmente. Outros autores trabalharam com esta percepção analítica da sociedade, pela qual a formatação se dá a partir de um plano pré-constituído pela cultura pretérita do grupo social.
Alguns, de fato, servindo como fonte desta forma de definir o comportamento humano na sociedade, afirmaram este determinismo social. Assim, o fez Berger : “podemos dizer que a sociedade dá o original para todas as dramatis personae. Logo, os atores só precisam entrar nos papéis que lhes foram atribuídos (...)”
Eis que surge, nesta esteira do objetivo coletivo, segundo papéis sociais modelares, as contribuições de Kant , delineando, pela moral e a razão prática, uma paisagem domesticada a partir do comportamento ideal para os novos tempos:
“Antes de qualquer coisa, cumpre notar que o caráter formal evidencia a obrigatoriedade no cumprimento da lei da razão. O imperativo categórico, nesse sentido, exprime um princípio objetivo e incondicionado que um ser racional deve tomar como máxima de sua vontade sem nenhuma influência sensível se quiser chamar a essa vontade de boa vontade. (...) O sujeito, por sua vez, é dotado de sensibilidade, e esta afeta, através da faculdade de desejar, a sua vontade. Quando submete sua vontade à lei moral, ele o faz, de um lado, por respeito, e, de outro, por obrigação.”
Assim considerando a construção espacial geohumana de uma sociedade (esta considerada como um grupo composto por seres humanos, seja qual for a sua dimensão e tipo de cultura ou governo), alicerçada por papéis redefinidos historicamente, bem como pela moral externa (projeta para o interno humano), como bem pretendeu o funcionalismo sociológico, como imaginar que tudo se desfaz sem a presença da polícia? Como os seres humanos largam de imediato suas plataformas morais para aderir à barbárie? A referida sociedade cunha pela segurança, moral e ordem se sustenta até que momento? Quantos são os que estão dispostos a criar o caos? Existem tais pessoas? Qual o medo de fato? Teria a história mais importância do que a mídia, enquanto poder de opinião e construção da segurança ou do medo?
Resulta, pois, destas indagações pertinentes ao nosso cotidiano (sublimado pelas nossas múltiplas obrigações diárias), e da nossa própria existência, a coragem de afirmar a falibilidade humana de esclarecer, a nós mesmos, que complexa sociedade é esta, da qual fazemos parte, e que se reconstrói continuamente com os mesmos problemas do passado. A complexidade, se pertence a sociedade (enquanto massa humana), também é própria de cada sujeito (elemento da massa), mantido pela sua subjetividade e sua individualidade, no grupo social reificado pelos retóricos rótulo elaborados pelos intérpretes da ciência que nada prova.
Vimos, ou nos “colocaram”, num lugar inseguro, governado pelo medo (construído artificialmente ou não), onde o terrível pode estar próximo. Os teóricos que tentaram afirmar a existência dos papéis e da fonte moralizante do grupo social, como maestros programadores do futuro, não esperavam ver, no futuro, esta contradição visível nestes dias: Iphones e o medo de sair às ruas.
São antagonismos surreais de nosso tempo! Incerteza, divindade e linguagem podem, ainda, ser os arquétipos característicos de nossa humanidade retrodesenvolvida. Talvez sejamos instintivamente animais, aguçados pelo impulso da morte, competidores e cultuadores da riqueza e do poder, dualistas experimentadores do amor e da ira, e, dialeticamente, desejantes da autosobrevivência e preservação. Portanto, nos apresentamos complexos, indivudualistas, imprevisíveis e inseguros, quando estamos atemporalmente ameaçados. Então, nesta linha reflexiva, quem são os protagonistas das ameaças? De quem devemos ter medo? Qual a fonte da ameaça e da segurança?
Bibliografia
BERGER, P. Invitation to sociology. 1963. In: COULSON, Margaret. RIDDEL, David. Introdução Crítica à sociologia. Zahar. Rio de Janeiro. 1972.
GOFFMAN, Erving. A Representação do Eu na Vida Cotidiana. Vozes. Rio de Janeiro. 2005.
CARVALHO, Irene Mello. Introdução à psicologia das Relações Humanas. FGV. 16ª edição. Rio de Janeiro. 1988.
MARCONDES, Danilo. JAPIASSÚ, Hilton. Dicionário de Filosofia. Jorge Zahar.Rio de Janeiro. 1996.
PIMENTA, Pedro Paulo. Reflexão e moral em Kant. Azougue. Rio de Janeiro. 2004.
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