Papo aberto com a literatura.
Aderlan Crespo
“Cemitérios gerais onde não é possível que se ache o que é de todo cemitério: os mármores em arte. Nem mesmo podem ser inspiração para os artistas, estes cemitérios sem vida, frios, de estatística. Sem muito, podem ser tema para as artes retóricas, que os celebram porém do Sul, longe da tumba toda. (...) Neles não há gavetas em que, ao alcance do corpo, se capitalizam os resíduos possíveis de um morto. (...) A morte aqui não é bagagem nem excesso de carga. Aqui, ela é o vazio que faz com que se murche a saca. (...) A morte aqui é ao ar livre, seca, sem o ressaibo natural noutras mortes...(...) Nestes cemitérios gerais não há morte isolada mas a morte por ondas para certas classes convocadas.(...) Vão todos com a morte padrão, em série fabricada. Morte que não se escolhe e aqui é fornecida de graça. Mas afinal tem suas vantagens esta morte em série. Faz defuntos funcionais, próprios a uma terra sem vermes. Nestes cemitérios gerais os mortos não variam nada. É como se morrendo nascessem de uma raça. Todos estes mortos parece que são irmãos, é o mesmo porte. Se não da mesma mãe, irmão da mesma morte. E mais ainda: que irmãos gêmeos, de molde igual do mesmo ovário. Concebidos durante a mesma seca-parto. Todos filhos da morte-mãe, ou mãe-morte, que é mais exato. De qualquer forma, todos, gêmeos, e morti-natos.” (Morte e Vida Severina e outros poemas em voz alta. João Cabral de Melo Neto).
Deparar-se com um artigo de um escritor de envergadura unânimemente consagrado, que irradia viagens para espaços distantes sem sair do lugar, é um privilégio em vida que poucos se detém a fazer. Negligência esta resultado de uma acelerada vida cotidiana. Mas, em periódicos de massa podemos encontrar fragmentos de ideias postas em textos enxutos para que minimamente realizemos esta valiosa viagem reflexiva. Isto é o que certamente pode acontecer ao lermos um espasmo intelectual criativo de João Ubaldo Ribeiro, na leitura do jornal de uma manhã de domingo.
O artigo de João Ubaldo Ribeiro no jornal O GLOBO do segundo domingo deste mês, 10 de julho, soava, pelo anúncio do título, um composto de política e esperança: “Deve ser tudo para nosso bem”. Seria mais um texto pinçado da infinita fonte de fatos que o Brasil produz. A dedução não foi frustrada, pois o autor deteve-se realmente aos frutos factuais da nossa sociedade brasileira, de minguada riqueza de que se pode ostenta. Tratou o autor de parodiar a corrupção, nesta semana dedicada ao Ministério dos Transportes, e também da criminalidade, em decorrência da recente mudança no Código de Processo Penal, que possibilitará menos decisões encarceradoras no país.
Detenho-me nesta laborativa construção analítica, como um operário dedicado à dinâmica industrial da produção do conhecimento, para destacar o quanto podemos nos surpreender com as pessoas, especificamente com os mais conhecidos e óbvios. Mas, ingenuidade pensar que um mestre da criação literária poderia ser‘óbvio’ em mais um, das centenas produzidas, de seus “contos”.
O autor, brincando, engenhosamente, com as palavras, para falar de coisas sérias, publicou uma história na qual dois personagens, sendo um jornalista e outro uma influente fonte, falarão de corrupção. No caso a entrevista ocorre num bar, o “Bar de Espanha”. O enredo trata justamente de uma entrevista, ocorrida neste bar, realizada com Zeca-munista, pessoa bem informada e com acesso a fontes reservadíssimas. Inicialmente, Zeca-munista afirma que o ministro dos Transportes não tem vergonha na cara, e que suas relações pessoais são complexas, pois envolve, inclusive, o ex-presidente Lula.
No ponto alto da entrevista, Zeca-munista afirma:“Então nem lhe conto o esquema que estão aprontando, você vai dizer que eu gosto de teorias de conspiração e sou paranoico, você vive me difamando no jornal. – Eu não difamo nada e publico o que você disser. – É que essa imprensa burguesa... Então bote aí que as dezenas de milhares de delinquentes presos que vão ser soltos vão se juntar às centenas de milhares, ou alguns milhões, que estão soltos, sem contar a maior parte, que a cana não pegou. Sentiu? Sentiu? Eles vão ser maioria declarada, estatística! Eles vão olhar para um lado, olhar para o outro e ver que estão na maioria, só precisa um pouquinho de coordenação. Com os políticos e ladrões e todos os corruptos e membros de quadrilhas que, quando são presos soltam logo, com esse pessoal todo na rua e mais o crime organizado, sentiu a consequência. Tá tudo dominado!(...) O resto é todo possível, tanto assim que já estão armando aí uma ONG para fazer um megaevento, logo que terminarem de soltar os presos todos. Já iniciaram os trabalhos em diversos Estados. Assim que os presos estiverem todos na rua, os organizadores entram em contato com eles e aí se realizará o Arrastão da Inclusão. Eu mesmo vou passar uns dias no cassino em Bueno Aires, não estou mais em idade para barricadas. (...) A ONG vai promover o arrastão como um meio democrático e moderno de efetivar a inclusão social desses presos todos. Cada capital terá seu arrastão, eles dizem que vai ser uma festa bonita, aquele tsunami de vagabundos, assaltantes e até assassinos saindo em revoada e pegando quem estiver pela frente. Viu como é uma manobra revolucionária?...”
João Ubaldo, na tentativa de prender a atenção dos leitores, para um tema já enfadonho nas mídias brasileiras, quicá nas próprias casas parlamentares – corrupção - , colocou no mesmo nível as práticas políticas ilícitas, daqueles que se colocam à disposição para trabalhar para a sociedade, e os pobres infelizes que anualmente são contabilizados por fazer crescer a massa de presos no país, segundo os censos oficiais. Crime é crime se quiser que seja. Fato é que, uma questão é alguém com um mandato, salário elevadíssimo, verbas de gabinetes que não conhecemos e sustentado pela esperança de que seu discurso será cumprido, passe a realizar manobras escusas para ficar milionário. Outra questão, são os milhares de brasileiros, que aguardam por décadas, as políticas sociais e econômicas que possibilitem viver com dignidade. Aguardam, portanto, por mais escolas públicas de qualidade, mais hospitais com estrutura compatível ao número de usuários e o fomento para o crescimento dos postos de trabalho no pais, para que do trabalho formal possa subsistir “dentro das regras”, sem fome, semmedo, sem rótulos, sem armas, sem mortes, sem o doutor juiz.
Mas, o que vemos afinal? Um país que sacrifica milhares de pessoas na vida seca do nordeste, que permite o confinamento em pequenos espaços de moradia e luta nas matas verdes da Amazônia, e que criminaliza, prende ou recolhe tantos outros que vivem nas capitais, sejam crianças, grávidas ou velhos.
Nos livros de história comumente chamam a atenção para a estrutura desigual na nossa sociedade, assim como também para a estigmiatização sobre os pobres e não brancos. Lombroso, médico italiano que viveu no século XIX, em sua obra “O homem delinquente”, não se preocupou verdadeiramente em apresentar um resultado científico, mas sim de fazer da ciência um detector do perigo, ao apontar quais os tipos de pessoas que seriam perigosas. Não se descuidou, pois, dos objetivos perversos da aristocracia burguesa europeia. Desta forma, passaram a temer os negros, os mulatos, os mestiços, enfim, os morenos. Também poderiam recear pelos seres baixos, orelhudos e dentuços. Salvaram-se os altos, brancos e de olhos e cabelos claros.
Desculpe João Ubaldo Ribeiro, mas talvez, a obra de João Cabral de Melo Neto, denominada “Morte e Vida Severina”, seja um documentário permanente a ser lembrado para contestar as tentativas de dizimação coletiva dos que recheiam as prisões e os cemitérios gerais. Um viva a cada vitória contra a opressão ainda dominante neste século XXI!
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