Por
Aderlan Crespo
Todos têm direito a opinar sobre tudo e, como não poderia
ser diferente, a política integra este
direito individual de expressão. Eis a famosa liberdade de expressão, que nos
tempos mais democráticos que possa existir, deve ser reconhecido como um direito fundamental a ser respeitado. Trata-se
do direito de expor o que pensa, de falar o que pensa e de se colocar diante de
um determinado assunto. Mas, por necessária finalidade de organização social e
proteção da qualidade de convivência, este direito não é absoluto. Portanto, falamos
de liberdade sim, mas não uma liberdade plena, considerando que sempre haverá
leis que limitarão o nosso agir, em nome do bem-estar social, do equilíbrio
interno e do respeito ao direito do outro.
A
Democracia (e neste texto me reservo
no direito de destacar a palavra aplicando a primeira letra em maiúsculo, dada
a sua importância) tem suas bases bem definidas, seja pelo aspecto histórico,
seja pela própria verbalização em lei. Trata-se de um instituto político
construído desde a Idade Antiga, mas que foi sendo aprimorado ao longo das
décadas, diante das transformações sociais transcorridas no Ocidente (o Oriente
é outro modelo cultura, político e histórico). Desta forma, as alterações
internas de cada grupo social causam também alterações sobre as concepções e valores
manejados pelas pessoas no cotidiano. Enfim, a sociedade muda, porque nós mudamos.
Imagina-se que, ainda que utopicamente, ao longo do tempo haverá mudanças sim, e sempre para melhor, pois as pessoas, por uma questão de bom senso e inteligência, buscarão sempre uma vida melhor. Estamos falando de mudanças sobre o que mais importa, como por exemplo: alimentação, trabalho, moradia, entre outras necessidades. Como também questões mais simples, mas que são úteis no dia-a-dia, como a tecnologia, o transporte e a limpeza urbana. Provavelmente, sempre haverá necessidade de melhorarmos a vida coletiva, tanto que existem pessoas que se ocupam justamente destas tarefas: os servidores públicos, os parlamentares e os gestores. Estas pessoas – os servidores -, voluntariamente se colocam a serviço da sociedade, para cumprir as funções públicas em nome do povo, representando a instituição política maior, o Estado. Mesmo que no Brasil haja uma distorção entre os direitos trabalhistas dos servidores e dos trabalhadores do setor privado, como por exemplo, a estabilidade e alguns benefícios, todos são trabalhadores e importantes, e ninguém se torna melhor do que outro por esta particular condição empregatícia. Ainda há as empresas, que também são importantes e possuem a tarefa de contribuir com suas atividades industriais ou comerciais, visto que estão intrinsecamente ligadas às necessidades das pessoas, pois produzem e comercializam os produtos que precisamos.
No entanto, os
parlamentares e gestores do Executivo, por representarem o povo, precisam
regulamentar a atuação das empresas, para que os preços cobrados sejam
compatíveis com o real valor do produto e a capacidade de compra do cidadão. Isto
não quer dizer que o Estado deva restringir o lucro ou limitar as atividades
das empresas, mas sim proteger os cidadãos de práticas empresariais que se
utilizam da demanda para obter lucros abusivos. O mesmo se diga dos bancos,
pois são instituições financeiras que usam a moeda do cidadão para realizar as suas
atividades, concedendo crédito e financiando grandes projetos. Denota-se assim, a
existência de um sistema de organização que funciona diariamente para
que a sociedade funcione bem, e disto não podemos abrir mão.
Acontece que, há servidores que são temporários, pois seus cargos são determinados por um tempo certo, como no caso dos mandatos dos parlamentares e dos prefeitos, governadores e presidentes da República. Estes últimos fazem parte do Poder Executivo e são os principais gestores sociais, pois possuem o controle das políticas públicas implementadas pelos órgãos públicos, e que são coordenadas por seus secretários, ou ministros no caso da esfera federal. As políticas públicas são as ações executadas que visam atender as tais necessidades das pessoas, isto é, o que mais importa para as pessoas. E todas as pessoas são detentoras dos direitos previstos em lei, o que significa que não se pode selecionar quem será beneficiado pelas políticas públicas. Um gestão pública que privilegia grupos na sociedade não governa de forma justa. Não obstante a igualdade perante a lei e ao Estado (todos são cidadãos), há pessoas que precisam mais do que outras, por uma questão de condição financeira, ou seja, há pessoas que não conseguem acessar pelo consumo determinados bens e serviços, e ao Estado cabe prover os necessários auxílios para que possam viver dignamente (esta política pública chama-se “justiça social”).
O ideal, por
certo, é que houvesse políticas públicas de longo prazo, que diminuíssem o
número de pessoas em condição de dependência do Estado, estreitando o máximo a
distância entre ricos e pobres. Mas, esta não é uma realidade no Brasil. A escolha
política nunca foi esta, ou seja, projetos nacionais de longo prazo,
independentemente dos diversos mandatos, o que demonstra sermos um povo com um dos mais
graves índices de desigualdade social. Aliás, a distância entre ricos e pobres
cresce sempre que há picos de agravamento macro-econômico, causando ainda mais
problemas na vida micro-social, principalmente sobre a alimentação, moradia e
outros direitos básicos e fundamentais.
Desta forma, o que se exibe como mais importante na conjuntura política brasileira é a falta de capacidade de superação dos problemas mais importantes para as pessoas – o que mais importa-, ou seja, a execução de políticas públicas que favoreçam a qualidade de vida, da maioria ou de todos, e isso inclui a saúde das empresas. Uma sociedade com famílias vivendo este mínimo necessário, alimentação, moradia, saúde e trabalho, torna-se uma sociedade forte, desenvolvida e capaz de superar as adversidades que possam surgir à frente. Este conjunto de necessidades não deveria ser algo tão difícil, como se fossem metas difíceis ou inalcançáveis. É notório que, toda família, nos quatro cantos deste país, desejaria ter acesso a estes direitos, e que seus dias fossem tranqüilos em relação ao que comer, onde morar, ao salário a receber e aos tratamentos médicos protetivos à saúde. Estas necessidades não deveriam ser promessas de candidatos em todas as eleições, mas sim direitos exercidos normalmente, já há décadas, pois são fundamentais para que se viva bem. E estamos falando do mínimo necessário. Porém, não é isso que vislumbramos.
A realidade demonstra que as políticas públicas direcionadas a
estas necessidades são raras e pontuais, e dependem ainda do “ jogo político”
praticado pelo Legislativo e Executivo, num troca-troca imoral, onde as
necessidades dos cidadãos são reduzidos a moeda de barganha. E o pior é que,
este jogo não tem fim, sendo renovado a cada eleição dos novos parlamentares.
A prioridade não é o povo.
A luta política interna, entre os diversos grupos
ideológicos, não é algo ruim, pelo contrário, faz parte do tal “jogo
democrático”. Agora, se há muitos partidos ou pouco, é algo que se deva
discutir e se aprimorar, mas sempre
visando o bem-comum. Todavia, notamos que os parlamentares e gestores do
Executivo privilegiam seus interesses pessoais e políticos, deixando de atender
ao que realmente importa para a população. Vejam como os seres humanos são
capazes de atuar contra toda uma sociedade, ainda que se apresentem tão bem.
Infelizmente, a
miséria e as contradições sociais presentes na sociedade brasileira integram os
elementos necessários para uma política imoral e perversa, que não se preocupa verdadeiramente
com as necessidades das pessoas, mantendo apenas as desigualdades sociais. Esta
forma de “fazer política” perpetua este
cenário trágico, onde milhões não conseguem comer, nem morar e nem trabalhar, e
assim continuam a obter seus ganhos pessoais e suas vidas privilegiadas pelo
luxo e conforto, tudo pago com dinheiro público.
Entre o que
precisamos e o que fazem por nós há um grande desencontro. A “política” deveria
ser o caminho do bem. O que podemos fazer de melhor por nós é: direcionar
nossas forças para um grande pacto político, e nos unirmos para reivindicarmos
aquilo que mais importa para as nossas vidas: alimentação, saúde, moradia, trabalho e um futuro melhor e equilibrado. Ao menos
isto para que possamos viver dignamente. Aliás, sendo o Brasil um dos maiores produtores de alimentos do mundo, comida não deveria ser problema para as famílias brasileiras. Brigarmos entre nós, em nome de
político A ou B, apenas agravará nossos problemas, enquanto alguns continuarão
a viver com sobras, com luxo, com privilégios e a mesa farta, enquanto muitos
continuarão a viver com pouco ou com migalhas. É preciso nos apropriarmos das
verdadeiras pautas políticas e exigir o que nos é de direito. O conflito não
é positivo. Sejamos mais sábios....
