A complexidade da conduta humana

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INSTITUTO DE ESTUDOS CRIMINAIS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

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domingo, 13 de dezembro de 2020

Por que ser um político rude?

 

                                                                                                                      Aderlan Crespo

            É muito, mas muito antiga a reflexão sobre a política. Foram séculos que permitiram o ser humano (majoritariamente os homens) atuar como líderes, representantes do povo, tanto como verdadeiros ídolos, tiranos ou como meros indiferentes, quando desprovidos de qualquer valor, a simpatia ou raiva. O alcance de tal condição de poder se deu de forma diferente na história, seja por sucessões de famílias (famílias reais ou dinastias), pela força (tirania) ou ainda  pela vontade da maioria (democracia). Eis, portanto, o incrível invento dos povos civilizados: a política.

            Em outra órbita, o ser humano carrega consigo, quando atinge a maturidade (digamos que na fase adulta), inúmeras tendências de ordem pessoal,  desenvolvidas ao longo de sua vida. Essas tendências comportamentais, que também são conhecidas como “caráter”, “características pessoais da persona”, ou até “personalidade”, fazem parte do indivíduo, como parte integrante do seu “eu”. É como se permanecessem grudadas na consciência, e que são demonstradas em determinadas situações, perceptíveis aos olhos de terceiros. Provavelmente, se forem positivas  serão reforçadas pelo indivíduo portador, mas se forem rejeitadas pelos demais do grupo, então serão reprimidas pelo mesmo. Porém, pode ocorrer justamente o oposto. O indivíduo, fazendo sua selfie (auto-análise), não desaprova suas características pessoais, e as adota como referência predominante (às vezes até aprimora, como um polimento que visa fazer surgir o brilho do objeto). Agindo assim, estará o indivíduo atuando conscientemente de forma indesejada, buscando justamente “ser desagradável”. As conseqüências oriundas destas atitudes poderão resultar no isolamento do indivíduo, a não ser que este se enquadre em um grupo cujas atitudes predominantes dos demais sejam a mesma ou semelhante (grupo constituído por afinidades de comportamento).

            Façamos agora a aproximação das duas reflexões anteriores, ou seja, uma composição, de ordem prática e teórica, sobre a política e a atitude indesejada. Teremos então a atitude desagradável, logo indesejada, praticada por um político. O problema surge quando tal hipótese ocorre nos tempos atuais envolvendo um chefe de governo. Seria compatível esta forma de governar na pós-modernidade?

            Inicialmente, podemos afirmar que qualquer pessoa, atuante na vida política ou não, em muitas oportunidades é solicitado a justificar uma determinada atitude que praticara, e que não foi bem recebida. Neste caso,  sendo um governante, recairá sobre o mesmo uma preocupação sobre sua imagem, pois para este a forma como é visto pelo povo é essencial para sua estabilidade política, considerando que precisa da “aprovação” popular –ou pelo menos da maioria – para que continue sua trajetória no futuro. Neste sentido, a racionalização humana nos condiciona a avaliar como somos avaliados por terceiros  e, portanto, devemos ajustar nossas atitudes diante da expectativa que existe sobre nós. Certamente que não devamos viver em alerta sobre como temos que agir para agradar os outros, mas paira sobre todos nós a vontade de sermos aceitos da melhor forma possível. Para tanto, nos avaliamos a partir de determinados acontecimentos que nos levam a julgar nossas atitudes. Pode não ser um exercício habitual, mas é muito provável que em alguns momentos fomos levados a pensar sobre “como agimos em determinada situação”, ou se “o que aquela pessoa me falou procede”.

            Mas, e se, no caso da política, o governante, ainda que  criticado repetidas vezes por milhares de pessoas, de forma manifestamente direta e clara,  não concordar com a desaprovação de suas atitudes ofensivas e rudes?

            O governante, a partir do poder lhe foi concedido pelo povo, além de ter que planejar as melhores estratégias para o país, deve agir com o compromisso de ser agradável e, consequentemente, deve deixar de lado as suas tendências pessoais tão criticadas, e que são responsáveis por atitudes indesejadas, em nome do cargo que exerce?

            O governante, neste século, passa a ser um símbolo da ética, da moral, do respeito e das novas matrizes que envolvem o relacionamento humano na coletividade?

            Eis uma questão que tem em mira o resgate do debate acerca da ética e da moral na política. Além de colocar também em pauta a questão da estabilidade social, pela qual deve haver o empenho máximo dos indivíduos sobre a organização social em seu cotidiano. Há de certa forma, uma necessidade da conveniência da convivência humana, que exige que sejamos sóbrios e racionais, a ponto de fazermos o melhor em nome da coletividade, mesmo com tanta diversidade e pluralidade cultural. Podemos afirmar que a maioria das pessoas vive segundo as principais regras sociais que visam promover uma convivência harmoniosa, ou minimamente tolerada, ainda que muitos atuem de forma a conspirar contra esta finalidade (a sociologia estrutural vai denominar como “desvio social”). Trata-se de um problema atemporal.

            Na antiguidade, Platão decidiu seguir os passos de seu inspirador e manteve-se firme nos estudos e nas reflexões sobre a “política e a investigação sistemática dos fundamentos da conduta humana”.

            Enfim, a psicologia nos direciona a pensar sobre como convivemos, sobre  quem somo e como nos tornamos, e como se explicam determinadas atitudes desagradáveis praticadas pelo ser humano. Contudo, ainda que as ciências nos demonstrem teses sobre o “comportamento humano”, estaremos sempre impactados por condutas indesejáveis, principalmente quando o autor é alguém responsável por uma nação.

            Podemos e devemos aceitar que a vida seja de fato uma porta de possibilidades e experiências, boas e ruins, e que o melhor é nos preparamos para todas as possíveis experiências. A força está dentro de nós, mas precisa ser ativada.

            No entanto, como ser humanos racionais, possuímos de fato o controle de nossas consciências, e deveríamos de alguma forma planejar nosso “eu” para a convivência, pois o agrupamento é a nossa essência. E a qualidade da vida do grupo depende da atitude de cada um que faz parte dele.

            Desta forma, a vida política exige que sejamos os mais lúcidos possíveis, a ponto de nossas escolhas não permitirem o sucesso de candidatos que optam por praticarem atitudes desagradáveis, ofensivas, indelicadas e preconceituosas.