A complexidade da conduta humana

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INSTITUTO DE ESTUDOS CRIMINAIS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

ADVOGAR E VIVER PARA CONCILIAR. FILOSOFIA DE TRABALHO & FILOSOFIA DE VIDA.


                                                                                                        Por Aderlan Crespo- Jan/2020

Desde sempre ( e faz muito, muito tempo) que o ser humano cria conflitos, atritos, confusões, ou seja, brigas, e até guerras (sempre há um “bom” motivo para os conflituosos, muita embora eventos assim ocorram por força emocional que controla determinantemente a consciência individual.
Na vida particular, com o passar dos tempos, surgiu o processo jurídico. Neste, a briga virou "litígio", sendo um nome técnico utilizado pelos técnicos envolvidos, e claro, mais bonito para se usar. 
Com o processo, as brigas se tornaram um problema do Estado, algo oficial, e que de tão complicado que é o ser humano, este modelo de briga mais organizado cresceu e cresceu muito. Para o processo funcionar, e bem, foi preciso criar um número absurdo de funcionários públicos para dar conta de tanta “briga processual”. São vários órgãos dos tribunais, inúmeros cargos, reverências de tratamento, e ainda centenas de prazos e procedimentos diferentes, que se não forem cumpridos ali até aquele dia certo há sempre um prejuízo ou, perde-se alguma coisa, ou tudo. Mas, caso a pessoa venha a perder ou se atrase no cumprimento de algum prazo, ainda pode ser salva, graças aos recursos, e que são muitos, muitos mesmos. 
O que ainda pode ser interessante nesta forma "civilizada" de se “brigar”, e isso é muito positivo, é como tratar os envolvidos, quer dizer, a tal da “liturgia”. As reverências são eufemismos até, mas tornam mais elegante o duelo subjetivo e prático. Vossa excelência para cá, nobre colega para lá, pomposos data-vênia, doutora,  pela ordem, e alguns outros ainda usuais. Todavia, esse fenômeno nobre do conflito ocorre pela presença dos técnicos envolvidos, principalmente os representantes dos adversários.
Desta forma, tornamos o que é provavelmente parte da nossa existência – Ser “em e com” conflitos -  algo que se burocratizou, de tal forma colossal, que recursos inimagináveis são destinados à este tipo de “briga”, além dos suntuosos corredores de mármore, ou até gabinetes reais. O foro era o Palácio do Rei e hoje é o Palácio da Justiça.
Cada parte envolvida, ao invés de desferir o melhor “golpe físico” ou “ofensa verbal” diretos contra o adversário, adota os procedimentos do processo, que geralmente desconhece, por meio de profissionais especialistas – ADVOGADOS ou ADVOGADAS, e aguarda pelo término do cansativo e quase interminável processo. O que mudou muito nessa forma de “brigar” é que os adversários contratam pessoas para lutar por elas. Estes representantes dos envolvidos são os profissionais dos processos, conhecedores das leis, do direito, quem sabe até da justiça, se é que pode conhecer de fato tal desejo ou ideal. Assim, eis que surgem os advogados e advogadas, como guerreiros em ação, prontos para mais uma batalha.
Mas, se cada adversário pode ter o seu advogado ou advogada no processo, tornou-se interessante  o fato de que, mais pessoas se envolvem nos conflitos dos outros, integrando o grande grupo de pessoas (adversários, juiz, servidores do cartório, ministério público, testemunhas, peritos...). A ideia principal é que nesta forma de “briga” a arma mais poderosa seja a “linguagem”, escrita ou falada. O vencedor “poderá ser” o que melhor argumentou, e provou. O juiz definirá o vencer. É a batalha técnica da linguagem, dentro do processo.
Portanto,  temos a figura do juiz, ou juíza como os reveladores da justiça. Neste modelo de “briga” sempre houve e haverá um  vencedor e um derrotado. A regra atual é a igualdade entre as partes, aos quais são concedidos as mesmas armas, prazos e direitos. Então, pois, no processo jurídico há sim aquele que ganha alguma coisa e o que perde, ou, na dramaturgia da condição humana, o que sorri contente e o que chora, de raiva ou de tristeza. 
Porém, enquanto profissionais, não do processo nem da justiça, podemos fazer diferente em nome da humanização do conflito interpessoal, tornando os adversários pessoas com qualidade de conciliação. O objetivo e minimizar os traumas, do conflito e até do processo judicial.
Se a pessoa tem em si o ímpeto de lutar pelo que deseja e pelo que considera justo, por que não podemos evitar todo esse longo e árduo caminho do conflito processual?
Certamente que, seja provável, e até razoável, que o cliente assuma o papel de inimigo de seu adversário e faça do "processo" a metáfora da "briga" da rua que no momento do clímax desejava ter, sem dúvida alguma. Mas, por que não incidir tecnicamente propondo a dúvida pelo desejo incondicional da batalha entre inimigos mortais?
A proposta deste texto é sugerir que sejam transformados os desejos motivados pelo ódio em uma possibilidade de ajuste de interesses, baseada na racionalidade e critérios técnicos, substituindo a “briga” pessoal numa arena de luta técnica mais controlada e satisfatória.
Por que é preciso continuar, no processo, a ser desferidos fortes golpes contra o adversário, até que ele caia e se grite: "eu ganhei"!
Apesar de a condição humana admitir este ímpeto do ódio conflituoso, por vezes até insignificante, no qual o elemento emocional parece conduzir as ações, pode, ou deve, o Advogado ou a Advogada buscar o meio mais simples e rápido de por fim à este conflito e, por que não, à aquele sentimento de ódio nutrido pelos adversários. Não seria por facilidade nem por dinheiro, mas pelo motivo principal: a solução do problema. O melhor a se fazer, ao contrário da cultura judicializante, pode ser evitar o processo, fazendo com que ambos adversários aceitem ganhar e perder, um pouco aqui e ali, e juntos possam dizer: " nós ganhamos", ou “niguém ganhou nem perdeu”.
Enfim, depois de séculos podemos encontrar sim uma forma mais humana de resolver a “briga” dos outros, sem tanta dor, tempo ou dinheiro, além do desgaste psicológico. Os adversários, que pelo visto sempre existirão, ganharão, bem como a sociedade também ganhará. Vamos propor e realizar acordos, mudar a realidade processual e até as relações humanas. O objetivo não pode ser o processo! O processo pode não ser o necessário. O fundamental deveria ser por fim ao conflito interpessoal entre as pessoas e evitar a continuidade em processo judicial. Sr Advogado e Sra Advogada, vamos humanizar os conflitos humanos, por meio da nossa linda profissão.